O Decálogo conclui com um mandamento que proíbe o desejo
ilícito, a cobiça sem sugestão alguma de ato, pois diz respeito primariamente à
motivação, e não à ação concreta. A cobiça é um mal devastador muito comum
ainda hoje em nossa cultura ocidental materialista. Trata-se de uma atitude de
natureza interna que pode expressar-Se em ato real. Toda ação boa ou ruim
começa no pensamento. Os outros mandamentos proibem atos; aqui, a proibição diz
respeito ao desejo, não ao desejo em si, mas ao desejo daquilo que pertence a
outro. Não é pecado desejar bens e conforto, as coisas boas de que necessitamos
na vida.
O décimo mandamento aborda a responsabilidade do israelita
sobre o pecado do pensamento. É um recurso divino que Deus proveu para
habilitar o israelita a obedecer os mandamentos anteriores. A cobiça é um dos
piores pecados, o pecado que não se vê. Essa é a sua característica distintiva
em relação aos outros, pois não é possível ser conhecido. Isso mostra que o
Legislador divino é onisciente, pois ele conhece o mais íntimo do coração
humano, nossos desejos e intenções (1 Rs8.39; 1 Cr28.9;Jr 17.10;At 1.24). Deus
se interessa não só pelos corretos atos concretos, não apenas pelo
cerimonialismo na adoração, mas principalmente pela pureza de um coração
sincero. Isso mostra o lado espiritual do Decálogo; nem tudo é apenas jurídico.
A ideia central é não desejar aquilo que pertence ao outro.
Já vimos que o Decálogo está estruturado em duas seções
identificadas com a primeira e a segunda tábuas, as tábuas de pedra em que
foram escritos os Dez Mandamentos, literalmente as dez palavras. A primeira
contém os compromissos do israelita diante de Deus, e a segunda de sua
responsabilidade para com o próximo. Os dois grandes mandamentos citados por
Jesus podem ser um resumo dessas duas tábuas. Esses mandamentos estão dispostos
numa sequência lógica. O quinto mandamento é uma ponte que une o conteúdo das
duas tábuas.
Em seguida vem a proteção da vida: “Não matarás”; depois a
proteção da família: “Não adulterarás”; a proteção da propriedade: “Não
furtarás”; a proteção da honra: “Não dirás falso testemunho contra o teu
próximo”; e o último protege o israelita de ambições erradas.
EXEGESE DO DÉCIMO MANDAMENTO
O verbo hebraico hãmad,”desejar, ter prazer em, cobiçar, ter
concupiscência de”, aparece 14 vezes no Antigo Testamento. O termo em si é
neutro e se aplica também a coisas boas (Sl 19.10 [lii; 68.16. Essa palavra é
repetida no décimo mandamento no texto de Êxodo 20.17 e uma só vez no registro
do Decálogo, em Deuteronômio 5.21: “E não cobiçarás a mulher do teu próximo”.
Na segunda cláusula, “e não desejarás a casa do teu próximo”, aparece outro
verbo ‘ãwãh,’ “desejar ardentemente, ansiar, cobiçar, anelar”.
Ambos os verbos aparecem como sinônimos no relato da
tentação do Éden: “agradável aos olhos… e desejável para dar entendimento” (Gn
3.6). A Septuaginta traduz pelo verbo epithyméõ, literalmente “fixar desejo
sobre”, da preposição epí, “sobre”, e do substantivo thymós, “paixão, ira,
furor”.
Esse verbo grego aparece no NOVO Testamento para se referir
ao décimo mandamento (Rm 7.7; 13.9) e também para expressar desejo por tudo o
que é proibido (Mt 5.28; 1 Co 10.6). O substantivo derivado dele, epithymia, é
usado para “concupiscência” em 1 João 2.16: “Porque tudo o que há no mundo, a
concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é
do Pai, mas do mundo”. Concupiscência é desejo desordenado; trata-se do “forte
e continuado desejo de fazer ou de ter o que Deus não quer que façamos ou
tenhamos” (KASCHEL & ZIMMER, 2006, p. 45). Mas todos esses termos,
hebraicos e gregos, são neutros, podendo se referir a coisas boas ou a coisas
más, dependendo do contexto (Mt 5.28; 13.17). O formato textual do décimo
mandamento de Êxodo 20.17 é diferente do registro de Deuteronômio 5.21, mas não
divergente:
Os católicos romanos e os luteranos mantiveram a tradição
catequética medieval do Decálogo esboçada por Agostinho de Hipona e que
predominou durante a Idade Média. Os dois primeiros mandamentos são
considerados um só, e o décimo é dividido em dois. “Não cobiçarás a casa do teu
próximo” é o nono, e “Não cobiçarás a mulher do teu próximo” (Êx 20.17), o
décimo.
Qualquer pessoa pode observar sem muito esforço que tal
arranjo é uma camisa de força, pois não corresponde à divisão natural (Êx
20.1-17; Dt 5.7-21). Além disso, o Decálogo do catolicismo romano não é
bíblico, trata-se de uma interpretação com lentes papistas. Nós seguimos o
arranjo das igrejas ortodoxas e protestantes reformadas, que vem desde os
antigos judeus (JOSEFO, Antiguidades Judaicas, Livro 3, 4.113, edição CPAD).
O décimo mandamento aparece expandido em Deuteronômio em
relação ao texto de Êxodo e inclui o campo do próximo na lista das coisas que
não devem ser cobiçadas. Alguns críticos estranham a inversão das cláusulas,
pois a fraseologia de Êxodo começa por não cobiçar a casa do próximo e em
seguida vem a proibição de não cobiçar a mulher do próximo, mas em Deuteronômio
essa ordem é invertida: primeiro vem a mulher e depois a casa.
Ambos textos, contudo, proíbem a cobiça de bens e pessoas:
além da mulher ou do esposo, pois a mulher pode também cobiçar o marido alheio,
o servo e a serva do próximo;propriedades: casa e campo; o termo “casa” aparece
muitas vezes na Bíblia com o sentido de “família” (is 24.15; At 16.31), mas
parece não ser essa a ideia aqui; e semoventes: boi, jumento ou qualquer outra
coisa. A frase final “nem coisa alguma do teu próximo” inclui posição social ou
ascensão no trabalho.
Há discussão sobre a substituição de Izãmad por ‘ãwãh na
segunda cláusula do décimo mandamento (Dt 5.2 1). O verbo hãmad aqui aparece
com a esposa do próximo e ‘ãwãh com as demais coisas. Isso pode levar alguém a
pensar em ãmad como um tipo sensual de desejo, mas isso não procede por duas
razões principais:
a) é usado para bens móveis e imóveis (is 7.21; Mq 2.2);b)
ambos os termos aparecem como sinônimos (Gn 3.6; Pv 6.25; Sl 68.17).
Parece que ‘ãwãh diz respeito a um tipo de desejo casual. O
formato textual de Êxodo está adaptado ao estilo nômade de vida de Israel no
deserto, ao passo que Deuteronômio, quase 40 anos depois, é o modelo para o
povo prestes a ser estabelecido na terra de Canaã como país.
OS FATOS
Os relatos bíblicos estão repletos de cobiças destruidoras,
a começar pelo primeiro casal. “E vendo a mulher que aquela árvore era boa para
se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento,
tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela”
(Gn 3.6). Aqui se expressa exatamente o que afirma o Novo Testamento: “a
concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo
2.16).
Os irmãos de José desejavam a posição dele no coração de seu
pai, Jacó (Gn 37.4). A cobiça causou a ruína de Acã: “Quando vi entre os
despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata e, uma cunha de
ouro do peso de cinquenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão
escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata, debaixo dela” (Js
7.21). O verbo “cobiçar” aqui é hãmad, o mesmo usado no Decálogo (Êx 20.17; Dt
5.2 1). Acã cobiçou e se apropriou dos despojos de Jericó, objetos que não lhes
pertencia (Js 6.19).
O rei Acabe cobiçou vinha de Nabote e isso resultou num
escândalo nacional que levou à ruína a casa real (1 Rs 21.1-16). Ele e sua
esposa, Jezabel, violaram o sexto mandamento: “Não matarás”; o oitavo: “Não
furtarás”; O nono: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”; e o
décimo: “Não cobiçarás”. Dois Outros casos de cobiça aconteceram na casa de
Davi: seu filho Amnom violentou a própria irmã, Tamar, movido pela lascívia (2
Sm 13.15), e Absalão desejou ocupar o trono de seu pai enquanto Davi ainda era
vivo e reinava em Israel (2 Sm 15.16).
No Novo Testamento, encontramos Ananias e Safira, que
desejavam prestígio na Igreja, mas tentaram consegui-lo de maneira pecaminosa
(At 5.1-1 1). Simão Mago, de Samaria, tentou comprar os dons de Deus com
dinheiro, pois almejava poderes sobrenaturais para ostentação pessoal (At
8.18). Diótrefes, personagem desconhecida, cuja única menção no Novo Testamento
é desabonadora, já que ele procurava ter o primado na Igreja (3Jo 9).
O DÉCIMO MANDAMENTO NO NOVO TESTAMENTO
O mandamento “Não cobiçarás se distingue dos outros nove por
se tratar da motivação, e não do ato. Assim, é possível violar esse preceito
sem que haja comprovação concreta. É o décimo mandamento que golpeia a própria
raiz do pecado, o coração pecaminoso e o desejo perverso. O Senhor Jesus disse
que é do mais íntimo do ser humano que procede todo o tipo de pecado: “Porque
do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as
prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a
dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.Todos estes males
procedem de dentro e contaminam o homem” (Mc 7.21-23). A lista de Mateus é mais
curta (Mt 15.19). Essas palavras mostram a dura realidade: o que o ser humano
realmente é, isso afeta o que ele diz (Mt 12.34, 35). Toda ação humana começa
no seu coração (Tg 1.14, 15).
O décimo mandamento era o recurso divino para o israelita se
proteger de não violar nenhum dos mandamentos do Decálogo. Mas, na graça, somos
guiados pelo Espírito Santo, o qual controla os nossos desejos. Assim, o
preceito aqui em foco foi adaptado pela graça. Cabe a cada um vigiar e orar
para não entrar pelo caminho da cobiça. Jesus disse: “Acautelai-vos e
guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do
que possui” (Lc 12.15).
A avareza é o apego demasiado e sórdido ao dinheiro, é o
desejo de adquirir e acumular riquezas. Desse modo, os bens materiais se
transformam em deus para os tais avarentos. A Bíblia afirma que a avareza é
idolatria: “Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a
prostituição, a impureza, o apetite desordenado, a vil concupiscência e a
avareza, que é idolatria” (Cl 3.5).
A avareza e a cobiça caminham juntas. Ambas são impróprias
para quem busca o reino de Deus (1 Tm 6.9, 10). Essas coisas são próprias para
quem teme o futuro, desconfia de Deus e da sua providência. Não somente a
avareza, mas também a inveja, pertence a esse grupo de pecados. A inveja é o
“sentimento de pesar pelo bem e pela felicidade de outra pessoa, junto com o
desejo de ter isso para si” (KASCHEL & ZIMMER, 2006, p. 90). Todas essas
coisas envolvem a cobiça, e a Palavra de Deus afirma com todas as letras que a
cobiça é pecado (Rm 7.7).
A vontade de Deus expressa nesse último mandamento do
Decálogo é que haja pleno contentamento com aquilo que temos e com a nossa
condição: “Contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.14), ensino de João Batista
para os militares. “Mas é grande ganho a piedade com contentamento” (1 Tm 6.6).
Quem tem Jesus não está obcecado pelas riquezas materiais,
pois tem em seu interior algo muito mais valioso que os tesouros do mundo. A
NTLH traduz esse versículo da seguinte forma: “É claro que a religião é uma
fonte de muita riqueza, mas só para a pessoa que se contenta com o que tem”.
A Bíblia nos exorta ainda: “contentando-vos com o que
tendes” (Hb 13.5). Há aqui certo paralelo com Filipenses 4.11. Mas convém
ressaltar que todas essas exortações não são uma apologia à pobreza nem uma defesa
do status quo econômico; é uma recomendação para que nossos desejos não venham
desagradar a Deus nem causar danos ao nosso próximo (Rm 12.15).
A conduta do cristão deve ser a de se alegrar com que os se
alegram e chorar com os que choram (Rm 12.15). Ninguém deve ser dominado pela
inveja (Gl 5.26; Tg 4.14-16) nem alimentar o sentimento de tristeza pelo
sucesso alheio (Ne 2.10; SI 112.9, 10). Glorifique a Deus pelas bênçãos e pelo
sucesso do seu irmão, e você será abençoado também, a seu tempo (Ec 3.1-8).
Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus
Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em
Dourados - MS
Livro Os Dez Mandamentos = CPAD = Esequias Soares



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